sábado, 19 de agosto de 2017

Opinião do dia – Antonio Gramsci

Somos conformistas de algum conformismo, somos sempre homens-massa ou homens–coletivos. O problema é o seguinte: qual é o tipo histórico de conformismo, de homem-massa do qual fazemos parte? 

Quando a concepção do mundo não é crítica e coerente, mas ocasional e desagregada, pertencemos simultaneamente a uma multiplicidade de homens-massa, nossa própria personalidade é compósita, de uma maneira bizarra: nela se encontram elementos dos homens da caverna e princípios da ciência mais moderna e progressista, preconceitos de todas as fases históricas passadas estreitamente localistas e intuições de uma futura filosofia que será própria do gênero humano mundialmente unificado. 

Criticar a própria concepção do mundo, portanto, significa torná-la unitária e coerente e elevá-la até o ponto atingido pelo pensamento mundial mais evoluído. Significa também, portanto, criticar toda a filosofia até hoje existente, na medida em que ela deixou estratificações consolidadas na filosofia popular. 

O início da elaboração crítica é a consciência daquilo que é realmente, isto é, um “conhece-te a ti mesmo” como produto do processo histórico até hoje desenvolvido, que deixou em ti uma infinidade de traços acolhidos sem análise crítica. Deve-se fazer, inicialmente, esta análise.
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Antonio Gramsci. Cadernos do Cárcere, v.1, p.94. Editora Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 2006.

Oitenta anos depois, um Gramsci para todos | Francesco Giasi

- L’Unità & Gramsci e o Brasil

Dossiê Gramsci, oitenta anos depois

Dois mil e dezessete é um “ano gramsciano”, por marcar o octogésimo aniversário da morte do pensador sardo, em 1937. Não é de hoje sua presença no debate político e na produção acadêmica brasileira. Uma presença que não é unívoca nem tem a mesma valoração por parte de todos os que se inspiram em maior ou menor medida nos textos daquele pensador. Nossa perspectiva — democrática e reformista — é uma das formas de acolher seu complexo legado. Sem a menor pretensão de qualquer monopólio ou ortodoxia, temos um objetivo “simples” e direto: pôr Gramsci a serviço da democracia brasileira.

Acolhemos a ideia de historicizar radicalmente os escritos do pensador, relacionando-os às diferentes circunstâncias em que foram produzidos — circunstâncias que inauguram nosso tempo, mas não são nem podem ser exatamente as mesmas aqui e agora. E tudo sem censuras, cortes ou embelezamentos. Certamente, este é um pressuposto da apropriação crítica, e não doutrinária, do autor, tornando-o apto a ajudar na compreensão de nossos problemas. Frases soltas ou conceitos descontextualizados têm assim validade muito restrita, ainda que possam ressaltar o brilho do escritor. Mas, como dissemos, nosso objetivo é de outra natureza.

Aqui reunimos três referências internacionais na área. Na abertura, Silvio Pons, atual presidente da Fundação Gramsci, em Roma, e sucessivamente Francesco Giasi e Giuseppe Vacca, diretores da mesma Fundação. Um tema recorrente nestas entrevistas é a monumental Edição Nacional dos Escritos, em curso de publicação. Mas não faltam alusões a questões substantivas da atualidade: a globalização e sua crise, para não falar dos imensos dilemas da própria esquerda.

A Fundação Astrojildo Pereira (FAP) e a Fundação Gramsci atuam conjuntamente no plano editorial, especialmente na coleção Brasil & Itália, acolhida e apresentada por Armênio Guedes, dirigente histórico do PCB associado entre nós às “ideias italianas”. De Giuseppe Vacca, já publicamos Por um novo reformismo; Gramsci no seu tempo (com Alberto Aggio e Luiz Sérgio Henriques); Vida e pensamento de Antonio Gramsci, 1926-1937; e Modernidades alternativas. O século XX de Antonio Gramsci. De Silvio Pons, publicamos A revolução global. História do comunismo internacional, 1917-1991, densa narrativa do impacto do comunismo no século passado.

(Entrevista dada a Massimo Franchi, L’Unità, 26 abr. 2017)

O que significa para os senhores, da Fundação, o aniversário amanhã, dia 27 de abril, dos 80 anos da morte do fundador de nosso jornal?

Política e representação | José Antonio Segatto*

- O Estado de S.Paulo

Os problemas do voto proporcional poderiam ser resolvidos, em parte, por medidas simples

Mais uma vez, como tem ocorrido invariavelmente em todos os momentos de crise, a reforma política é aventada como panaceia para todos os problemas do sistema de representação e gestão política do País. Em suas diferentes versões, tanto em sentido estrito (mudanças na legislação eleitoral e de regulação partidária) como lato (alterações na forma de governo), seria condição indispensável para conformar o sistema político à governabilidade e à democracia. Uma das medidas primordiais seria a substituição do voto proporcional pelo majoritário/distrital para a eleição de deputados federais e estaduais.

Seus defensores justificam que seria a melhor maneira de aproximar os eleitores da política – a delimitação espacial das circunscrições eleitorais avizinharia representados e representantes, facilitando a cobrança de uns e forçando a prestação de contas de outros. Além disso, tornaria os pleitos menos custosos, eliminaria as deformações do sistema proporcional, em que o eleitor não tem controle de seu voto, e, o que mais importa, diminuiria a quantidade de partidos, excluindo mesmo as minorias e/ou as pequenas legendas, convertendo a governabilidade em algo mais exequível.

Cuidado, não pense antes de agir | Bolívar Lamounier*

- O Estado de S.Paulo

Não se preocupem, caros leitores, com o vale de lágrimas que estão vendo e ouvindo

Nós, brasileiros, somos mesmo um prodígio. Não contentes em acreditar que Deus é brasileiro, somos também propensos a nos vermos como um povo divino.

É certo que isso mudou de uns anos para cá, mas até poucas décadas atrás estávamos seguros de que iríamos usufruir de todas as coisas boas do mundo, naturalmente, sem grande esforço. Chego mesmo a pensar que aquele antigo otimismo ainda está por aí, disfarçado, só esperando a tempestade passar. Cedo ou tarde, o Deus brasileiro, a “mão invisível” ou, mais provável, um miraculoso “projeto nacional” nos libertará dessa angústia passageira que estamos vivendo.

A hipótese que venho de enunciar ajuda a compreender quão simplórias e confusas têm sido as ideias a que recorremos para enfrentar os desafios com que sucessivamente nos deparamos. Tudo se passa como se, no fundo de nossa mente, houvesse uma voz sempre a nos dizer: “Faça o que quer, não acredite no que está vendo ou ouvindo”. Ou, de uma forma mais taxativa: “Não pense antes de agir”.

O pior déficit | Cristovam Buarque

- O Globo

Nossas eleições estão entre as mais caras do mundo

O Congresso Nacional se prepara para saltar da responsável aprovação do teto nos gastos públicos para a irresponsável aprovação do desvio de R$ 3,6 bilhões, com o objetivo de financiar as campanhas eleitorais no próximo ano. Um dia, preocupado, o povo assiste ao presidente da República dizer que o Brasil sofre a falência dos serviços públicos por falta de dinheiro; no outro, perplexo, assiste que haverá dinheiro para financiar campanha milionária: R$ 2 milhões por eleito — deputados federais e estaduais, governadores, presidente; R$ 30 pagos por eleitor.

Ao assistir a estes dois fatos — falta de dinheiro para os serviços e dinheiro sobrando para as eleições —, o povo desacredita ainda mais de seus governantes, sobretudo depois do reconhecimento de um déficit de R$ 159 bilhões em 2017. A oposição também fica desacreditada ao tratar o povo como se ele não soubesse que este déficit foi provocado sobretudo pela irresponsabilidade de seu período no governo.

Racha saudável | Merval Pereira

- O Globo

“É bom que rache, há momentos na vida em que é preciso tomar uma decisão”. Assim o presidente em exercício do PSDB, senador Tasso Jereissati, reagiu às críticas ao programa partidário que assumiu os erros cometidos no passado e mostrou o partido disposto a recuperar seu eleitorado.

OPSDB, criado depois do rompimento com o MDB por causa do fisiologismo comandado por Orestes Quércia, agora se vê às voltas com o fisiologismo do governo Temer, que tem sob controle o PMDB, que, sintomaticamente, quer voltar a ser MDB. Mas será o MDB de DNA quercista, e não o de Ulysses Guimarães.

Romper agora novamente devido ao fisiologismo estaria de acordo com a linha programática do partido. Ajudar o governo de transição de Temer estava dentro do que o PSDB deveria fazer, por ser a solução constitucional e, inclusive, porque o partido apresentou um programa de governo reformista que tinha tudo a ver com o programa do PSDB.

A encruzilhada do PSDB | João Domingos

- O Estado de S.Paulo

Será difícil convencer o eleitor de que os tucanos não têm nada a ver com Temer

A menos de uma semana de completar 28 anos de existência, o PSDB vive seu maior dilema: ser governo, ser oposição, equilibrar-se em cima de uma mureta? Qualquer saída que se ache não resolverá o drama existencial do partido, porque é um drama agravado pela rejeição do eleitor ao comportamento dos políticos, conforme se vê a cada nova pesquisa de opinião que é divulgada.

Diante dessa realidade, parte do PSDB acha que deve permanecer ao lado de Michel Temer e parte acredita que a salvação do partido está no afastamento imediato do governo. Tal providência, no entanto, dificilmente convencerá o eleitor de que o PSDB, por se distanciar de Temer, merece credibilidade maior. Não dá para crer que uma providência tão singela vá convencer o eleitor a mudar sua opinião.

Para o eleitor, os políticos são praticamente iguais. O PSDB não pode se considerar diferente, porque não é. Quando o governo do Rio se viu obrigado a mandar à Assembleia Legislativa um projeto de lei que autorizava a privatização da Cedae, a companhia de água e esgotos do Estado, os tucanos se posicionaram contra a proposta. Ora, a vida toda o PSDB espalhou a ideia de que é a favor de um Estado mínimo e da privatização de estatais. Como a venda da Cedae não beneficiaria o partido, ficou contra. Naquele momento, igualou-se aos outros, pisou em sua história.

Guerras culturais | Pablo Ortellado

- Folha de S. Paulo

Militarismo e religião marcam as guerras culturais no Brasil

Desde os anos 1990, os Estados Unidos viram temas "morais" como o controle de armas, a legalização da maconha e o casamento gay ganharem centralidade no debate público, ao ponto de se tornarem os elementos chave que dividem o campo político. À oposição original entre liberais que defendem o livre mercado e socialistas que defendem a intervenção do Estado somou-se outra: aquela entre conservadores que defendem uma autoridade tradicional que puna o desvio da norma e progressistas que preconizam uma autoridade diluída e valorizam a diversidade. Cientistas sociais deram a essa nova disputa o nome de "guerras culturais".

As pesquisas realizadas nos últimos anos descobriram algumas coisas sobre as guerras culturais. Elas não se estendem ao conjunto da sociedade, mas estão circunscritas àqueles 10% ou 15% que se dedicam a debater assuntos políticos fora do Estado. Embora tenham raízes mais distantes, as guerras culturais parecem mais imediatamente ligadas à reação de setores conservadores às mudanças nas relações interpessoais trazidas pela contracultura e pelos movimentos feminista, negro e LGBT desde os anos 1970. Por esse motivo, não é exatamente apropriado falar de uma ascensão conservadora, mas de uma reação conservadora.

Quebrando o gelo | Miriam Leitão

- O Globo

A economia permanece em ambiente de crise, mas vai acumulando indicadores melhores. O comércio surpreendeu no segundo trimestre e interrompeu uma sequência de oito quedas consecutivas. O setor de serviços subiu pelo terceiro mês seguido. O IBC-Br também mostrou alta no segundo trimestre, e algumas projeções do PIB deixaram de ser de queda.

As melhoras pontuais não resolvem nem de longe os dois principais problemas da economia brasileira hoje: o desemprego e a crise fiscal. Esta semana o IBGE divulgou o índice trimestral mais amplo revelando que o desemprego, o subemprego e o desalento atingem 26 milhões de brasileiros. A crise fiscal teve também esta semana uma prova de que estamos em um buraco sem fundo.

PSDB propõe 'desfiliação em massa' | Vera Magalhães

- O Estado de S.Paulo

O clima de velório é a marca estética e política da propaganda que o PSDB levou à TV na noite desta quinta-feira, 16. A melhor definição veio de um ministro tucano: parecia um programa para propor a desfiliação em massa da sigla, que se apresentou ao País como um organismo em processo de extinção.

O começo da peça já mostrava o que estava por vir: entremeado com cenas de um passado já remoto de conquistas tucanas apresentadas com saudosismo vinha o mantra “mas o PSDB errou”, entoado por atores com cara de quem tem aversão ao partido. O histórico de fisiologismo, escândalos e crises políticas feito a seguir trata de colocar no mesmo balaio Fernando Collor, FHC, Lula e Dilma, ao não mencionar o PT nenhuma vez de forma crítica e não fazer nem sequer uma distinção entre os legados de um e de outro partido.

Morre o Imposto Sindical. E agora? | Suely Caldas*

- O Estado de S.Paulo

O motivo da proliferação de partidos é apropriar-se do dinheiro público

O Brasil tem 33 partidos políticos e 16.491 sindicatos (11.240 de empregados e 5.251 de empregadores). Em quantidade de quem se intitula representante de alguma coisa somos campeões. A maioria dos países desenvolvidos convive com dois, no máximo cinco partidos. A África do Sul, depois do Brasil segundo país no ranking, tem apenas 191 sindicatos. Por que temos tantos partidos e sindicatos? Nos dois casos o motivo que incentiva a proliferação é o mesmo: apropriar-se do dinheiro público. Pode faltar verba para hospitais, escolas, construir esgotos e presídios ou para ajudar o ministro Meirelles a abater o rombo fiscal, mas os R$ 819 milhões do Fundo Partidário e os R$ 3,5 bilhões do Imposto Sindical são sagrados, nunca faltam.

Exercício de simetria | Demétrio Magnoli

- Folha de S. Paulo

Quando estabelece uma simetria entre ‘os dois lados’ na Virginia, Trump dilacera um valor da democracia

Robert Lee, o comandante das forças confederadas, viveu apenas cinco anos após o término da Guerra Civil, o suficiente para criticar o erguimento dos primeiros monumentos à fracassada insurreição.

"Penso ser mais sábio seguir o exemplo das nações que se esforçaram para apagar as marcas do conflito civil e consignar ao esquecimento os sentimentos por ele gerados", escreveu em 1869. As elites sulistas preferiram a memória ao esquecimento, ignorando o aviso de Lee.

Um século e meio depois, a disputa sobre monumentos não é mais uma contenda sobre o passado. Por isso, ao dizer que a remoção de estátuas"dilacera a história e a cultura" nacionais, Trump enuncia uma verdade irrelevante. Já quando estabelece uma simetria entre "os dois lados" em confronto na Virginia, ele dilacera um valor fundamental da democracia.

Um monólogo infinito | Ana Maria Machado

- O Globo

Basta um passeio pelas redes sociais para que constatemos como tecido cultural corre o risco de se esgarçar

Há poucos dias, no Teatro Municipal de Niterói, assisti a uma alentadora cerimônia de entrega dos prêmios Zilka Salaberry de Teatro Infantil. Um caso de resistência cultural. Incluía ainda bela homenagem ao centenário de Dalva de Oliveira. Na mesma ocasião e nas conversas entre os artistas da plateia, manifestaram-se outros exemplos da força desses criadores que resistem. Como a da Escola de Teatro Martins Pena, tão cara a meu coração desde que lá dei aulas de dramaturgia na gestão de Klaus Viana, e onde agora os professores resistem e se mantêm trabalhando mesmo sem receber seus salários, com heroica dedicação, capaz de ir muito além dos limites imagináveis. Alguns artistas agradecem a empresas privadas, como a Oi, que vem conseguindo manter alguns casos de apoio. Outros relembram tempos em que a dependência de patrocínios e da mão governamental não era tão acentuada como hoje, possibilitando viver de bilheteria — mas sem meia-entrada, e com plateias fieis que não tinham medo da violência urbana e saíam à noite em uma cidade amigável, para festejar e assistir às peças com amigos.

As velhas raposas | Luiz Carlos Azedo

- Correio Braziliense

A solução da crise terá que sair das eleições de 2018, é a regra do jogo democrático, cuja primeira condição é a manutenção do calendário eleitoral; a segunda, a possibilidade de alternância de poder

O velho Piantella não perde a majestade. Na noite de quarta-feira, ao contrário da maioria dos deputados que gostam de futebol e foram assistir ao clássico Flamengo e Botafogo pela televisão (um zero a zero dos mais sem graça, no campo do Engenhão, no subúrbio carioca do Engenho de Dentro), um grupo de velhas raposas do Congresso se reunia nos fundos do velho reduto dos deputados Ulysses Guimarães (PMDB-SP) e Luiz Eduardo Magalhães (PFL-BA). Ambos pontificaram na política nacional tecendo grandes acordos políticos que garantiram a transição à democracia, o primeiro, e o sucesso do Plano Real, o segundo. E deixaram discípulos na arte da política.

Estavam lá o atual decano da Casa, Miro Teixeira (Rede), eleito pela primeira vez nas eleições de 1974 com um caminhão de votos, Heráclito Fortes (PSB-PI), Benito Gama (PTB-BA), José Carlos Aleluia (DEM-BA), Rubens Bueno (PPS-PR) e Tadeu Alencar (PSB-PE), que é novo no grupo, mas respeitado porque é muito sensato e bom advogado, o que é muito importante nessas horas nas quais a criatividade pode selar o destino do país com uma boa saída jurídica. O assunto da conversa entre essas velhas raposas da política não poderia ser outro: desatar o nó da reforma política, em discussão na Câmara, que havia acabado de encerrar a sessão sem conseguir votar nenhuma proposta. Motivo: absoluta falta de clareza da maioria sobre o que fazer com o sistema eleitoral e o financiamento das campanhas.

Cortina de fumaça – Editorial | O Estado de S. Paulo

É consensual a premência da reforma do sistema político-eleitoral, entre outras reformas, como a da Previdência. Os cidadãos verdadeiramente interessados na reconstrução nacional consideram essa uma questão essencial para o resgate do País do atraso político, econômico e institucional em que se encontra e projetá-lo para o futuro.

Já passou da hora de uma reforma que leve ao saneamento do incompreensível mosaico partidário brasileiro, incluindo a adoção da chamada cláusula de desempenho, medida que fortalecerá as legendas que realmente têm estofo programático e representação social, requisitos fundamentais para conferir, mais do que racionalidade, legitimidade à democracia representativa consagrada pela Constituição.

Bancadas defendem privilegiados no Congresso – Editorial | O Globo

Parlamentares prometem resistir a propostas do governo no campo do funcionalismo, em nome do ‘povo’, quando agem, na verdade, em favor de castas

A maior crise fiscal de que se tem registro joga luz na movimentação de grupos de interesse que falam em nome do povo e da democracia, mas cuja reação ao ajuste é para manter vantagens, conseguidas por meio do acesso privilegiado às entranhas do Estado. Uma maquinação que teve especial êxito nos governos Lula e Dilma.

Um sinal visível dessa movimentação surgiu em atos contra a reforma da Previdência, incluindo a de servidores públicos. Manifestações de rua expuseram a mobilização de categorias profissionais de classes de rendas médias, com a ausência nada surpreendente de populares. Também fica exposta a marca das corporações, quando vociferam contra uma das propostas básicas para salvar a seguridade — o estabelecimento de idade mínima, para a requisição da aposentadoria, de 65 anos para homens e 62 para mulheres —, e nisso também falam em nome do “povo”. Um embuste, porque este, mostram as estatísticas, já busca o benefício aos 65 anos, por não ter escolha. Costuma passar muito tempo na informalidade. Enquanto categorias profissionais organizadas conseguem o benefício no INSS dentro da média irrisória de 58 anos de idade, uma das molas propulsores dos déficits crescentes e descontrolados do INSS.

Terror primário – Editorial | Folha de S. Paulo

A eficácia monstruosa do 11 de Setembro —com o ineditismo do ataque de grande escala em solo americano e a novidade da organização transnacional de redes terroristas de inspiração islâmica— obscureceu por algum tempo o fato de que o terror é ameaça bem mais antiga e problema persistente, de difícil solução.

Decerto passa-se por um ciclo mais ativo desse tipo de barbárie; mas o terrorismo, doméstico ou importado, de inspiração religiosa ou política, é duradouro.

Existia terror antes dos islâmicos —ataques de separatistas bascos, irlandeses, corsos, para citar apenas alguns exemplos notórios; ou a guerra entre Israel e Palestina, que muita violência provocou em Paris. Existirá, quase certamente, depois deles.

A atual amplitude de alvos e a frequência dos morticínios, de todo modo, impressiona. Depois dos atentados a bomba da primeira década do século, tornam-se comuns massacres com armas automáticas e atropelamentos coletivos.

O terror, agora na Espanha – Editorial | O Estado de S. Paulo

O terror atacou de novo, agora na Espanha, seguindo friamente o seu roteiro destinado a semear o medo e o pânico tanto nas sociedades que cultuam valores de liberdade e tolerância, inaceitáveis para o obscurantismo e o fanatismo do Estado Islâmico (EI), como em quaisquer outras que ele toma por suas aliadas. O EI logo se apressou a reivindicar a responsabilidade pelas cenas de horror registradas quinta-feira em Barcelona e na cidade próxima de Camblis, que deixou um saldo sinistro de 14 mortos e 130 feridos, dos quais 15 em estado grave.

Uma van em alta velocidade avançou contra a multidão no calçadão Las Ramblas na região mais movimentada de Barcelona, uma via pela qual passam milhares de turistas espanhóis e estrangeiros por dia, nessa época do ano, pleno verão europeu. O motorista atropelou quem encontrava pela frente ao longo de mais de 500 metros. Deixou um rastro de destruição, com mortos e feridos, e conseguiu fugir. Aí as vítimas foram 13 mortos e 125 feridos.

Horas depois, num segundo ataque em Cambrils, que segundo a polícia espanhola tem ligação com o primeiro, um carro também atropelou várias pessoas, deixando mais um morto e cinco feridos, entre eles um policial. Quando os policiais conseguiram parar o carro, os cinco terroristas que o ocupavam iniciaram um tiroteio e foram mortos.

Confiança em alta na indústria – Editorial | O Estado de S. Paulo

Superada a última grande turbulência política, empresários e investidores dão sinais, novamente, de maior confiança em relação às perspectivas da economia. Barrada na Câmara a ação contra o presidente da República, o horizonte ficou um pouco menos enevoado, apesar das enormes dificuldades para execução do programa de reparo das contas públicas. Mesmo diante de um cenário muito desafiador, é sensível a melhora das expectativas. Em agosto, o índice de confiança do empresário industrial voltou a subir, depois de dois meses de queda, segundo a Confederação Nacional da Indústria (CNI). Com alta de 2 pontos em relação ao nível de julho, o indicador atingiu 52,6 pontos, muito acima do patamar de dois anos atrás (37,1), quando era ainda muito difícil avaliar até onde o País afundaria na recessão.

A escala usada na sondagem mensal da CNI vai de zero a 100. A linha de 50 pontos divide as áreas de avaliação negativa e positiva. Com 52,6 pontos, o índice de confiança está um pouco acima da linha de indiferença e aponta algum otimismo em relação aos próximos seis meses.

Esse otimismo é ainda insuficiente para desencadear uma onda de investimentos em ampliação e renovação do potencial produtivo, mesmo porque ainda há muita capacidade ociosa nas fábricas. A ociosidade, segundo as últimas estimativas, continua superior, em média, a 20% da capacidade instalada, mas a tendência tem sido de redução, graças a um moderado aumento do consumo e à expansão, em alguns segmentos, das exportações.

FHC deu aval à crítica em propaganda

Ex-presidente aprovou peça do PSDB veiculada na televisão em que o partido admite erros e fala em ‘presidencialismo de cooptação’

Julia Lindner e Igor Gadelha | O Estado de S.Paulo

BRASÍLIA - A propaganda do PSDB veiculada nesta quinta-feira, 16, em cadeia nacional de rádio e TV aumentou as divergências internas, levando uma ala de governistas do partido a iniciar um movimento para tentar afastar o presidente interino da sigla, senador Tasso Jereissati (CE), do cargo. Tasso é apontado como o responsável pelo vídeo, produzido pelo publicitário Einarth Jacomé. O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso também ajudou a elaborar a propaganda.

“Isso não faz o menor sentido, porque, se vai substituir o presidente do partido, tem que substituir também o presidente honorário, já que o vídeo passou pelo crivo do presidente FHC”, disse o senador tucano Cássio Cunha Lima (PB).

Segundo integrantes do partido, FHC foi responsável por sugerir o uso da expressão “presidencialismo de cooptação” para criticar o modelo de governo brasileiro, considerada uma das frases mais polêmicas da peça e vista como crítica ao governo Michel Temer. “A expressão ‘cooptação’ foi sugestão do próprio FHC. Ia ser coalizão e ele sugeriu cooptação”, disse Cunha Lima.

FHC incluiu termo polêmico em peça do PSDB

Thais Bilenky | Folha de S. Paulo

SÃO PAULO - O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso é o autor da inclusão do termo "presidencialismo de cooptação" usado no programa do PSDB que causou o mais novo capítulo do racha no partido.

Indagado pela Folha, o tucano disse que viu o roteiro antes da gravação e fez "uma correção". "Como havia uma crítica ao presidencialismo de coalizão, eu corrigi, dizendo que a crítica deveria ser ao 'presidencialismo de cooptação'", afirmou.

"Qual é a diferença? É que, neste último, dá-se uma relação com pessoas, mediada por nomeações e interesses pessoais, chegando aos financeiros", explicou.

"O outro [presidencialismo de coalizão] supõe uma convergência de pontos programáticos em consequência de apoio aos quais se abrem espaços no governo."

A corruptela incomodou tucanos e também políticos que viram na crítica ao sistema político mais uma deixa para pedirem cargos que hoje estão com o PSDB.

A peça de dez minutos foi ao ar na quinta-feira (17) em rádio e televisão e imediatamente agravou a crise interna no partido.

‘Não ia deixar o partido ficar moribundo, morrendo’, diz Tasso

Marcelo de Moraes | O Estado de S. Paulo

No centro da polêmica do programa exibido pelo PSDB na quinta-feira, o presidente interino do partido, senador Tasso Jereissati (CE), afirmou que “não ia deixar o partido ficar moribundo na cama, deitado e morrendo sem chegar a nada”. Em entrevista à Coluna, Tasso disse que “a polêmica é boa” e que o cargo de presidente está à disposição do senador Aécio Neves (presidente afastado) na hora em que ele quiser.

A seguir, a entrevista:

O programa do PSDB causou imensa repercussão e provocou muitas reclamações de tucanos. Qual a sua avaliação sobre o impacto provocado?

Tasso: O programa não disse nada que o País todo não esteja sabendo e vendo todos os dias. O sistema está podre e falido. O que estamos fazendo é propor uma solução para o sistema. Engraçado é que estou vendo pouca gente discutindo sobre isso. E acho engraçada a reação das pessoas. Aí, aparecem uns que sentem ofendidos. Não era a intenção. Quem devia se sentir ofendido é o sistema.

Após vídeo, ala tucana quer Aécio de volta

Atual presidente interino do PSDB e autor da propaganda que criticou políticos, Tasso pode deixar o cargo

Maria Lima, Leticia Fernandes, Catarina Alencastro e Cristiane Jungblut | O Globo

BRASÍLIA - A polêmica provocada pelo conteúdo da propaganda partidária do PSDB na televisão realimentou o movimento tucano ligado ao Palácio do Planalto que defende a volta do presidente licenciado Aécio Neves (MG) ao comando do partido. Governadores, ministros, parlamentares governistas e lideranças de peso do PSDB fizeram duras críticas ao presidente interino Tasso Jereissati (CE), que foi responsável pelo tom da propaganda denunciando o “presidencialismo de cooptação” no Brasil.

Logo após o programa ir ao ar, começou a pressão para afastar o senador cearense e fazer com que Aécio reassuma e escolha um novo interino para o mandato-tampão que vai até dezembro, quando acontece a convenção nacional dos tucanos. Ao longo do dia, no entanto, mesmo os que consideram inviável a permanência de Tasso passaram a avaliar ser um movimento arriscado derrubá-lo, pois levaria a uma fragilização ainda maior do PSDB.

Ainda indignados com o que chamam reservadamente de “traição”, os críticos dizem que o programa veiculado na TV não foi do partido, mas de Tasso, e consideram que o resultado foi “desastroso” tanto para a unidade da legenda, como para a disputa eleitoral de 2018 por deixar em posição vulnerável os ministros tucanos no governo. O partido ocupa quatro ministérios, e a avaliação interna é que o vídeo criou um constrangimento grande entre os tucanos e o presidente Michel Temer.

— O vídeo foi um desastre total. Atingiu os ministros, fundadores do partido, muita gente da ala jovem e principalmente o Tasso. Houve muitos pedidos de ponderação para que o programa não fosse nessa linha. A insistência dele indica um desajuste com o desejo da maioria de que essa transição fosse uma oportunidade para pacificar o partido — opina o deputado Paulo Abi-Ackel (MG) da ala governista ligada a Aécio.

Constituinte chavista toma Poder Legislativo

Constituinte venezuelana toma poder legislativo da Assembleia Nacional

Folha de S. Paulo

A Assembleia Constituinte da Venezuela, controlada pelo regime de Nicolás Maduro, assumiu os poderes da Assembleia Nacional, onde a oposição tem a maioria.

Na sessão desta sexta (18), os membros da Constituinte aprovaram por unanimidade um decreto autorizando-a a exercer o poder legislativo do Parlamento.

A decisão ocorreu após a liderança da Assembleia Nacional se recusar a jurar lealdade à Constituinte, cuja eleição considera ter sido ilegítima.

O regime alega que os parlamentares da oposição são responsáveis pela onda de protestos violentos antigoverno e que eles estariam colaborando com os Estados Unidos para depor Nicolás Maduro.

No início do mês, a Constituinte destituiu a procuradora-geral da Venezuela, Luisa Ortega, medida que agravou a crise política no país.

Os membros da Assembleia Constituinte foram eleitos no último dia 30, em pleito cujas regras foram questionadas pela comunidade internacional. Cerca de 14 pessoas morreram no dia das eleições, a maioria em protestos contra a eleição.

Em janeiro, o Tribunal Supremo de Justiça (TSJ), máxima instituição do Judiciário, anulou atos da Assembleia Nacional e a declarou em desacato, retirando toda a validade de suas decisões. Em 30 de março, o Tribunal, que é controlado pelo regime, assumiu o poder legislativo. Três dias depois, após críticas severas da oposição e reação negativa de países vizinhos, o judiciário voltou atrás e anulou sua própria decisão.

O episódio deu início a uma onda de protestos que já causou a morte de mais de cem pessoas.

Em meio à crise política, Maduro convocou a Constituinte afirmando que seria o meio para "alcançar a paz de que o país precisa, para derrotar o golpe fascista".

Constituinte de Maduro toma poder do Congresso

Para a OEA, medida mostra ‘aprofundamento do golpe de Estado

Mercosul também rejeita medida chavista, e presidente da Assembleia Nacional, sob controle da oposição, alerta que ‘uma segunda Cuba está se instalando’ no país; TV diz que ex-procuradora fugiu

A Venezuela de Nicolás Maduro deu mais um passo que aprofunda seu caráter ditatorial. A polêmica Assembleia Constituinte aprovou decreto para tomar poderes do Parlamento do país, controlado há um ano e meio pela oposição. O texto aprovado transfere à Constituinte de Maduro competência para legislar sobre diversos temas. O decreto foi considerado, dentro e fora do país, novo atentado à democracia. Para o secretário-geral da OEA, Luis Almagro, “o golpe de Estado” se aprofundou. Segundo a TV Univisión, a ex-procuradora-geral Luisa Ortega, que rompeu com o chavismo, fugiu do país.

Apertando o cerco

Constituinte chavista assume funções da Assembleia Nacional em ação sob forte crítica

Janaína Figueiredo | O Globo

Numa decisão que era esperada, mas não por isso causou menos comoção dentro e fora da Venezuela, a polêmica Assembleia Nacional Constituinte (ANC) aprovou ontem um decreto que retira faculdades essenciais da Assembleia Nacional (AN) do país, controlada há um ano e meio pela oposição. O texto votado ontem pelos constituintes eleitos em 30 de julho passado — em eleições consideradas fraudulentas pela oposição e mais de 50 governos estrangeiros — transferiu à ANC “as competências para legislar sobre matérias que garantam a preservação da paz, da soberania, do sistema socioeconômico e financeiro, os fins do Estado e a preeminência dos direitos dos venezuelanos”. Ainda ontem, após a divulgação de áudios em que a ex-procuradora-geral Luisa Ortega Díaz denunciava que o presidente Nicolás Maduro estaria envolvido no escândalo de corrupção da empreiteira brasileira Odebrecht, ela e o marido, o deputado chavista Germán Ferrer, deixaram o país de lancha até Aruba e depois voaram a Bogotá, onde chegaram no meio da tarde.

As reações locais e internacionais foram enérgicas e coincidiram em considerar a medida um novo atentado à democracia por parte do governo Maduro e, em alguns casos, como o do secretário geral da Organização dos Estados Americanos (OEA), Luis Almagro, “um aprofundamento do golpe de Estado”.

A um papa | Pier Paolo Pasolini

Poucos dias antes de você morrer, a morte
havia posto os olhos sobre um seu coetâneo:
aos vinte anos, você era estudante, ele operário,
você nobre, rico, ele um rapazote plebeu:
mas os mesmos dias douraram sobre os dois
na velha Roma que voltava a ser tão nova.
Eu vi os seus restos, pobre Zucchetto.
Zanzava de noite bêbado perto do Mercado,
e um bonde que vinha de San Paolo o apanhou
e arrastou um tanto pelos trilhos entre os plátanos:
ficou ali algumas horas, embaixo das rodas:
algumas pessoas se juntaram ao redor para olhar,
em silêncio: era tarde, havia poucos passantes.
Um dos homens que existem porque você existe,
um velho policial escrachado como um louco,
a quem se aproximava muito gritava: “Fora, cambada!”.
Depois veio o automóvel de um hospital para levá-lo:
o povo foi embora, ficaram uns trapos aqui e ali,
e a dona de um bar noturno pouco adiante,
que o conhecia, disse a um recém-chegado
que Zucchetto tinha sido pego por um bonde, tinha morrido.
Poucos dias depois você morria: Zucchetto era um
do seu grande rebanho romano e humano,
um pobre bebum, sem família e sem cama,
que vagava de noite, vivendo quem sabe como.
Você não sabia nada sobre ele: como não sabia nada
sobre outros milhares de cristos como ele.
Talvez eu seja cruel ao me perguntar por que razão
pessoas como Zucchetto eram indignas do seu amor.
Existem lugares infames, onde mães e crianças
vivem numa poeira antiga, numa lama de outras épocas.
Não muito longe de onde você viveu,
à vista da bela cúpula de São Pedro,
há um desses lugares, o Gelsomino…
Um morro partido ao meio por uma pedreira, e embaixo,
entre um canal e uma fila de prédios novos,
um monte de construções miseráveis, não casas, mas pocilgas.
Bastava apenas um gesto seu, uma palavra,
para aqueles seus filhos terem uma casa:
você não fez um gesto, não disse uma palavra.
Não lhe pediam que perdoasse Marx! Uma onda
imensa que se refrata por milênios de vida
o separava dele, da sua religião:
mas na sua religião não se fala de piedade?
Milhares de homens sob o seu pontificado,
diante dos seus olhos, viveram em estábulos e pocilgas.
Você sabia, pecar não significa fazer o mal:
não fazer o bem, isto significa pecar.
Quanto bem você podia ter feito! E não fez:
nunca houve um pecador maior que você.

(Tradução de Pedro Heise e Cide Piquet)
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Pier Paulo Pasolini (1922-1975), poeta e cineasta italiano.

Fabiana Cozza - "Nação"

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

Opinião do dia - José Honório Rodrigues

Aureliano Cândido Tavares Bastos, patrono desta cadeira, nasceu e se educou sob o domínio conservador, mas se iniciou na política quando recomeçava, no dizer de Joaquim Nabuco, a encher a maré democrática, que se tinha visto continuamente baixar desde a reação monárquica de 1837, e cuja vazante, depois da Maioridade, chegara a ser completa. (...) Apesar do predomínio conservador, a leitura dominante da elite intelectual era romântica e liberal. Um português miguelista, que aqui viveu entre 1828 e 1842, escreveu com espanto que “Thiers, Lamartine e Guizot e outros, cuja fama não morre, são as leituras e textos dos homens de Estado deste país”. (...) Não posso entrar no exame das influências românticas e liberais que formaram o espírito de Tavares Bastos, o mais orgânico, o mais sistemático e o mais lúcido pensador político que o Brasil já produziu. Ele não foi só um grande homem, apesar de sua mocidade, mas, sobretudo uma cultura. A extensão e profundidade de seu espírito, a claridade de sua consciência o torna uma exceção, não somente em sua época, como até hoje, pela capacidade de enlaçar a teoria e prática políticas e de incorporar toda a cultura de um povo.
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José Honório Rodrigues (20/9/1913-6/4/1987). Discurso de posse na Academia Brasileira de Letras (5 de dezembro de 1969, Rio de Janeiro: ABL, (mimeografo), 1969, p. 181

A marcha do ódio e um alerta para o mundo | Roberto Freire

- Diário do Poder

Todo o mundo permanece estarrecido e acompanha com enorme preocupação as consequências dos acontecimentos do último fim de semana em Charlottesville, no Estado da Virgínia (Estados Unidos). As ruas da pequena cidade norte-americana, de cerca de 50 mil habitantes, foram palco de uma série de atos de violência perpetrados por grupos de supremacistas brancos de corte claramente neonazista, xenófobo e racista, e de confrontos com manifestantes que protestavam justamente contra os extremistas de direita. Ao menos uma pessoa morreu e dezenas ficaram feridas.

Historicamente considerada progressista, Charlottesville é a cidade onde viveu Thomas Jefferson (1743-1826), o terceiro presidente dos Estados Unidos e um dos mais emblemáticos “pais fundadores” da nação norte-americana, principal autor da Declaração da Independência e defensor do republicanismo. Os grupos extremistas de direita, aliados a neonazistas e adeptos da famigerada Ku Kux Klan, foram às ruas para protestar contra a retirada de uma estátua do general Robert E. Lee, um dos símbolos dos movimentos escravocratas e líder dos confederados na Guerra Civil Americana (1861-1865) – batalha sangrenta que opôs estados do sul (escravagistas) e do norte, deixando mais de 600 mil soldados mortos.

Acorda, Congresso! | Eliane Cantanhêde

- O Estado de S.Paulo

O foco do Brasil está na crise fiscal e na reforma política, mas o Congresso não está nem aí

O Congresso Nacional está de costas para os interesses do País e isso significa que os representantes dos brasileiros não estão representando os interesses dos brasileiros. Os dois maiores desafios nacionais, neste momento, são combater a crise fiscal e renovar a cultura e o modo de fazer política e eleições. E no que a Câmara e o Senado, que deveriam liderar esse processo, estão contribuindo para isso?

Como o Estado publicou ontem, o Brasil acumulou um superávit de R$ 801,6 bilhões de 1999 a 2013, ou seja, nos governos Fernando Henrique e Luiz Inácio Lula da Silva, mas deu uma cambalhota estonteante na gestão Dilma Rousseff e, a partir dos últimos quatro anos, o que era superávit robusto virou déficit e pode chegar a desesperadores R$ 818,6 bilhões em 2020. E ainda dizem que não houve pedaladas e que o impeachment foi “golpe”...

Distritão misto | Merval Pereira

- O Globo

As negociações da reforma política caminham para uma espécie de “distritão misto”, no qual a legenda poderá ser votada para reforçar a representação partidária na escolha dos candidatos eleitos. Assim, um candidato que não estiver entre os mais votados, mas receber o reforço dos votos de sua legenda, pode superar outro.

Não haveria, nesse caso, uma lista fechada feita pelo partido, mas o eleitor poderia interferir na lista aberta ou pelo voto direto no seu candidato ou pelo voto em sua legenda preferida, que assim poderá eleger mais representantes.

A questão do financiamento das campanhas eleitorais é a que mais discussões provoca. O tal “Fundão Democrático”, se subsistir às críticas generalizadas, chegará à aprovação final desidratado. O recuo no estabelecimento do valor do fundo, inicialmente previsto para ter este ano R$ 3,6 bilhões, deve-se ao temor de uma revolta popular contra os políticos.

A "quadra desafiadora" | César Felício

- Valor Econômico

Para Hartung, dias atuais ainda serão lamentados


A greve dos policiais militares que desorganizou a segurança pública no Espírito Santo, no mês de fevereiro, acendeu um alerta para o governador Paulo Hartung, um expoente da ortodoxia econômica à frente de uma administração estadual. Ficou patente ali naquele movimento que existe uma teia subterrânea entre classe política, policiais militares e a baixa oficialidade do Exército, que reverberaram e amplificaram o protesto, com o uso das redes sociais como uma turbina propulsora.

A revolta desencadeada ainda em 2013 já havia subvertido o jogo partidário tradicional. Em vão o PT tentou sublimá-la e o PSDB e PMDB buscaram pegar carona. A destruição moral provocada pela Operação Lava-Jato cortou o vínculo dos partidos com a sociedade para sempre. Haverá alguma reorganização partidária, o próprio Hartung está de malas prontas para partir do PMDB para alguma parte, enquanto vê com preocupação o rumo que 2018 está tomando.

O MPF sequestrou o Congresso | Reinaldo Azevedo

- Folha de S. Paulo

Ou os congressistas honram a sua diplomação e enfrentam essa cáfila de aloprados, ou vamos para breca

Resta uma boa notícia na reforma política. Até esta sexta ao menos. Parece que se aprova o voto distrital misto para 2022. Abre-se uma vereda da terra dos mortos morais para o parlamentarismo. No mais, tem-se a luta tenaz por uma terra devastada. Por que é assim? O Legislativo se acovardou. Deixou-se sequestrar pela ala aloprada do Ministério Público Federal.

A reforma está sendo pensada e votada quando a reputação dos políticos vive o seu pior momento. Estão assustados. A prudência tem na coragem a sua melhor conselheira. Imprudentes de verdade são os covardes, capazes de assistir, inermes, à marcha para o abismo, com medo de seus sequestradores virtuais.

O rabo que persegue o cachorro | Bernardo Mello Franco

-Folha de S. Paulo

A reforma política passou a seguir a lógica do rabo que corre atrás do cachorro. Quem diz é Lúcio Vieira Lima, presidente da comissão que discute o tema na Câmara. O deputado afirma que um sentimento move os colegas: o medo de ficar sem dinheiro na eleição de 2018.

"A reforma só está sendo feita por causa do financiamento", resume o peemedebista. "Foi por isso que nós começamos a discutir sistema eleitoral, voto em lista, distritão. Agora tudo é para aprovar o fundo, porque sem ele não tem dinheiro", afirma.

Segundo o deputado, o impasse se instalou em 2015, quando o Supremo vetou as doações de empresas. "Todas as fontes de recurso foram criminalizadas", reclama o irmão de Geddel Vieira Lima, que cumpre prisão domiciliar na Lava Jato.

Velhice de menos | José de Souza Martins

- Valor Econômico / Eu & Fim de Semana

O Brasil semimoderno vem criando um conjunto de artifícios conceituais para escamotear a velhice e a condição de velho. Os velhos foram empurrados para baixo do tapete dos pseudoconceitos como o de "terceira idade", "idoso" ou "inativo". O Brasil tem vergonha de dizer que velho é velho porque como velho o trata e sabe que nisso há muita injustiça. Sobretudo porque muitíssimos dos que são definidos como velhos continuam trabalhando, produzindo e criando, até muito mais do que os definidos como jovens. Informação que não aparece nas estatísticas.

Muitos dos classificados como velhos são brasileiros clandestinos, cujas funções por conveniência do Estado e dos que mandam não são reconhecidas pela lei nem valorizadas. Essa conveniência está presente nas "interpretações" sobre as carências da Previdência Social. Culpa dos aposentados.

A verdade é que ser velho é cada vez mais complicado num país como o nosso. Os que mandam em nosso destino econômico e em nossa velhice estão, compreensivelmente, preocupados com a modernização econômica, mas nada preocupados com a modernização social e menos ainda com a modernização política.

Por que despencou | Celso Ming

- O Estado de S.Paulo

O vilão reiteradamente apontado é o mau desempenho do PIB

A arrecadação despencou mais do que estava projetado. O rombo fiscal, em vez de se manter nos R$ 139 bilhões, como previsto no Orçamento da União, deverá ser de R$ 159 bilhões, como anunciou o governo.

O vilão reiteradamente apontado é o mau desempenho do PIB, que deveria avançar 1% neste ano e continua sofrendo de anorexia, doença relativamente comum em pretendentes a modelo. Provavelmente ficará em magérrimo 0,5%. Baixo crescimento econômico é menos consumo e menos produção. Portanto, assim ficou derrubado importante gerador de arrecadação. Também a repatriação de recursos depositados no exterior ficou longe do esperado.

Mas isso está longe de ser tudo. É como dizer que o vovô quebrou o fêmur porque escorregou no tapete da sala. Sim, tem o maldito tapete onde o pé enroscou, mas têm outras coisas. Tem que o vovô é quase noventão, já não tem a mesma agilidade e, além disso, sofre de osteoporose...

O pente-fino | Míriam Leitão

- O Globo

O governo vai incluir no Bolsa Família 800 mil famílias no mês de agosto e assim zerar a fila dos pedidos de entrada. Apesar disso, foi reduzido em 1,5 milhão o número de famílias inscritas porque, segundo o ministro Osmar Terra, foi retirado do programa quem tinha renda maior do que admitia. Houve casos de funcionários públicos e até políticos que recebiam benefícios.

O ministro do Desenvolvimento Social disse que o pente-fino nos programas sociais foi bem sucedido. O auxílio-doença que estava sendo concedido havia mais de dois anos foi revisto por médicos peritos e se chegou à conclusão de que 85% recebiam indevidamente:

— Só no auxílio-doença estimamos mais de R$ 10 bilhões economizados. Há outros programas que estão passando por pente-fino e melhorando a gestão. O BPC (Benefício de Prestação Continuada) é maior do que o Bolsa Família, um programa de R$ 50 bilhões. Encontramos 17 mil pessoas mortas recebendo BPC. São R$ 600 milhões de economia nesse programa, tudo com mais controle. Com isso, nós queremos que as pessoas que precisam tenham continuidade.

Guilhotina moral para políticos | Vinicius Torres Freire

- Folha de S. Paulo

Mal começou a conversa sobre a eleição de 2018 e o debate já está em "adiantado estado de decomposição", como se escrevia sobre cadáveres nas folhas policiais de antanho. As finanças do governo do Brasil estão à beira do colapso, mas a discussão de candidaturas limita-se à desconversinha de costume.

Mesmo neste país tumultuado e de crises recorrentes, a situação é de gravidade e emergência raras. De certo modo, o governo de 2019 começa agora, nas decisões que serão tomadas neste 2017 ou até o início de 2018. A depender do que se decidir, mal haverá o que governar.

No entanto, a especulação e o debate políticos se restringem à reação da "base aliada" e de outros chantagistas desclassificados ao pacotinho de agosto de Temer-Meirelles. Candidatos a presidente e líderes de partidos maiores são tratados como turistas em visita ao país.

Aécio deve reassumir PSDB e nomear novo interino | Vera Magalhães

- O Estado de S. Paulo

A conflagração interna que vive o PSDB desde a exibição, na noite de quinta-feira, da propaganda nacional do partido em cadeia de rádio e TV deve resultar na volta de Aécio Neves ao comando da sigla, apenas para designar outro dos vice-presidentes para ficar no lugar do senador Tasso Jereissati até dezembro, quando acontece a convenção nacional dos tucanos.

Ministros, deputados, prefeitos, governadores e senadores tucanos reagiram com indignação ao programa de TV, que elenca erros do partido, insinua que seus integrantes foram “cooptados” para apoiar Michel Temer, associa o PSDB ao fisiologismo e à Lava Jato e propõe, sem que haja consenso interno, a adoção do parlamentarismo.

A velha censura – Editorial | Folha de S. Paulo

Aos muitos despautérios da reforma política que tramita no Congresso acrescentou-se, agora, o veto à divulgação de pesquisas de intenção de voto na última semana da campanha eleitoral.

A proposta nem mesmo tem a atenuante de ser um equívoco novo. Desde 1988, praticamente a cada biênio —no ano que antecede a realização de pleitos— parlamentares maquinam para impor alguma limitação às sondagens.

Todas as tentativas fracassaram, seja pelo rechaço da opinião pública, seja por intervenção da Justiça —em 2006, por exemplo, o Supremo Tribunal Federal considerou inconstitucional impor limites ao acesso a tais informações.

Na ocasião, o relator do caso, ministro Ricardo Lewandowski, equiparou a ideia a proibir "a divulgação de previsões meteorológicas, prognósticos econômicos ou boletins de trânsito".

Transformam a reforma política em um monstrengo – Editorial | O Globo

A pressa em aprovar o projeto a tempo de vigorar em 2018 produz graves distorções no sistema eleitoral e degrada o sistema representativo

Pode não ter o clima de feira livre da tentativa de alterar a legislação político-eleitoral, a toque de caixa, feita pelo então presidente da Câmara, Eduardo Cunha, em 2015. Mas está próximo. Mesmo porque o Congresso corre contra o tempo para aprovar propostas de emendas constitucionais e projetos de lei até o início de outubro, data limite a fim de que valham nas eleições do ano que vem.

O açodamento tem gerado, na Câmara, um monstrengo — embora com alguns recuos. Um deles, na excrescência da “doação oculta”, um caixa 1 das sombras, retirada do projeto pelo relator Vicente Cândido (PT-SP), dizendo que havia apoiadores da esquisitice, mas que não colocaram as caras para defender a proposta. E assim Cândido leva a culpa, junto com seu partido, já notabilizado por outra manobra notável: lavar propina na Justiça Eleitoral, transformando-a em doação legal. Pelo jeito, tentou criar outra.

A xepa da reforma política – Editorial | O Estado de S. Paulo

Como se estivesse num fim de feira, quando se faz de tudo para convencer o freguês a levar uma mercadoria que ele não quer de jeito nenhum, o relator da reforma política na Câmara, deputado Vicente Cândido (PT-SP), informou que vai alterar a proposta que institui o famigerado fundo para financiar campanhas eleitorais. Quando abriu sua banquinha, o relator havia incluído no seu texto a destinação de 0,5% das receitas orçamentárias da União para o tal fundo, o que daria algo em torno de R$ 3,6 bilhões. Diante da imensa repercussão negativa, o deputado admitiu que a freguesia tomou um “susto”, pois se tratava de “uma ousadia, muito desproporcional”, e agora diz que “R$ 2 bilhões é um valor razoável”.

Isso não pode ser sério. Em primeiro lugar, nenhum valor pode ser considerado “razoável” para compor o tal fundo, pois a própria existência do financiamento público de campanha contraria a essência da democracia representativa, na qual os partidos, como entidades privadas, devem ser financiados por seus apoiadores pessoas físicas, e somente por eles. Com o fundo público, todos os contribuintes são obrigados a pagar as despesas de partidos com os quais não têm nenhuma afinidade. Ao contrário do que se diz por aí, esse não é o “preço da democracia”, e sim o preço da confusão entre o público e o privado no Brasil.

Reforma pode piorar ainda mais o sistema eleitoral – Editorial | Valor Econômico

As decisões tomadas na área fiscal e da reforma política moldam limites para o governo que sair das urnas em 2018. O governo Temer já transmitiu enormes déficits fiscais a seu sucessor, mesmo depois de prometer reduzi-los segura e gradualmente. O modo político de operação da Nova República, por seu lado, ruiu com a descoberta pela Operação Lava-Jato de corrupção generalizada entre partidos e em empresas para saquear o Estado. Os congressistas delineiam um monstrengo que pode piorar, se é que isso é possível, o atual sistema e assegurar sua sobrevivência e a quase ingovernabilidade atual.

As eleições de 2018 definirão (ou não) soluções para retirar o Estado da rota da falência e ainda um arranjo político que dê ao futuro presidente capacidade para enfrentar problemas que se agudizaram nos últimos governos. Ao que tudo indica, porém, dado o ânimo continuísta dos parlamentares, em fuga da Justiça, o contorno institucional que preparam impede a renovação.

Prévia do PIB é estimulante – Editorial O Estado de S. Paulo

A recuperação continuou no segundo trimestre, lenta, mas firme, e a recessão ficou mesmo para trás, segundo o Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-Br). É mais um dado positivo, depois do noticiário animador sobre a evolução do consumo e a reação de vários segmentos industriais. O indicador elaborado pelo BC subiu 0,5% de maio para o mês seguinte. No período de abril a junho, o resultado foi 0,25% superior ao dos primeiros três meses do ano, descontados os fatores sazonais. Os números continuam inferiores aos do ano passado e, além disso, em 12 meses o resultado foi 1,82% menor que o do período anterior, na série dessazonalizada, e 2,03% mais baixo na série sem ajuste. Mas um ponto parece claro: a tendência do movimento é para cima. Depois de pouco mais de dois anos de retração, o caminho de volta começou num ponto muito baixo. Há um longo percurso até o nível de atividade anterior à recessão.

Terror em Barcelona tem como alvo valores civilizatórios – Editorial | O Globo

Atentado reivindicado pelo Estado Islâmico em área turística europeia segue mesmo padrão de outros atropelamentos e visa a estimular o clima de medo e ódio

Pelo menos 13 pessoas morreram e mais de 100 ficaram feridas, algumas em estado grave, ao serem atropeladas ontem em Las Ramblas, no coração turístico de Barcelona. A ação gerou pânico, com as pessoas procurando abrigo em lojas, enquanto as autoridades rapidamente isolaram a área. O grupo terrorista Estado Islâmico (EI) assumiu o atentado e, segundo a mídia local, um homem suspeito foi morto após troca de tiros com a polícia e outros dois acabaram presos.

Trata-se do oitavo ataque desse tipo no continente, desde 14 de julho do ano passado, quando um homem arremeteu um caminhão roubado contra a multidão, matando 86 pessoas que comemoravam o Dia da Bastilha, em Nice. De lá para cá, ocorreram atropelamentos em Berlim, Estocolmo, Paris e três ações em Londres.

FHC diz que 'é cedo' para saber quem teria mais chances em 2018, Doria ou Alckmin

Ex-presidente também apontou que o candidato terá de dialogar com todo o País, não apenas São Paulo, e partidos vão 'vão procurar quem tem mais possibilidade de ganhar'

Roberta Pennafort, O Estado de S.Paulo

RIO - O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB), disse nesta quinta-feira, 17, que vai apoiar em 2018 o candidato que “conseguir falar com o Brasil”, e não só com São Paulo, e afirmou ser cedo para definir qual tucano teria mais chances de chegar à Presidência da República, o governador Geraldo Alckmin ou o prefeito João Doria.

“Qual dos dois? Vou ver o que vai acontecer com a sociedade. Para um paulista é muito difícil ser nacional, porque São Paulo tem especificidades. O candidato tem que falar com o Brasil, não adianta ser só a sua turma. Tem que expressar a contemporaneidade e ser ético. Os partidos vão procurar quem tem mais possibilidade de ganhar”, disse.

FHC falou a empresários de diferentes setores num almoço na Associação Comercial do Rio de Janeiro (ACRJ). Ao falar da reforma política e fazer uma análise da conjuntura brasileira por 43 minutos, foi aplaudido em diversos momentos. Ao chegar, o presidente de honra do PSDB foi saudado pela presidente da ACRJ, Ângela Costa, como símbolo do “Brasil que deu certo”.

Respondendo a perguntas da plateia, ele foi questionado: “O PSDB morreu?” FHC disse: “(Sim), na medida em que os outros partidos também acabaram. A crise é geral, o que não significa que os partidos vão desaparecer. Na próxima eleição eles estarão aí. O PSDB tem possibilidades. É preciso ver que ideias o PSDB vai ter e que pessoas vão incorporar isso. Se eu puder ajudar, ajudo. Vou pensar primeiro no Brasil”.

FH diz que vai apoiar pré-candidato do PSDB que for ‘capaz de falar com o Brasil’

Em reunião com empresários, ex-presidente evita manifestar preferência por Alckmin ou Doria

- O Globo

RIO — O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso afirmou, nesta quinta-feira, que vai apoiar o pré-candidato do PSDB à Presidência que for “capaz de falar com o Brasil”. FH destacou que ainda é cedo para o partido definir quem será o escolhido para disputar o cargo — o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, e o prefeito da capital, João Doria, se movimentam nesta direção.

Durante evento com empresários na Associação Comercial do Rio de Janeiro (ACRJ), o ex-presidente ressaltou a importância de o candidato tucano “ser nacional” e não restringir o discurso ao eleitorado paulista.

— É muito difícil para um paulista ser nacional, porque São Paulo tem especificidades. O Brasil é complicado. Tem que ter uma abrangência mais ampla. O candidato tem que falar com o Brasil. Não adianta falar só com a sua turma. Deles (possíveis candidatos do PSDB), o que for capaz de falar com o Brasil, vai ter meu apoio — defendeu FH.

Para Fernando Henrique, a escolha do candidato tucano será pragmática:

— Os partidos vão procurar quem tem mais possibilidade de ganhar. É cedo para dizer isso com relação ao PSDB. Não quero nominar, mas tem dois que tem aí mais chance. Qual dos dois? Queira eu, não queira eu, vou ver o que vai acontecer com a sociedade e o que vai refletir sobre o partido, senão vai perder a eleição.

FHC: Escolha do candidato do PSDB à Presidência recairá sobre favorito

Por Cristian Klein | Valor Econômico

RIO - O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso afirmou que a escolha do candidato do PSDB à Presidência da República em 2018 “pode ser por prévia, pode não ser”. Numa sessão de perguntas depois de palestra na Associação Comercial do Rio de Janeiro (ACRJ), FHC afirmou que a decisão recairá sobre o nome que for favorito.

O governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, e o prefeito da capital, João Doria, são os concorrentes pela indicação do partido. Alckmin defende prévias no fim do ano, como forma de garantir a candidatura antes que Doria cresça nas pesquisas e se consolide.

FHC afirmou que o partido tende a levar isso em consideração. “O desempenho na campanha é fundamental. Os partidos vão procurar instintivamente quem tem mais chance de ganhar. É cedo ainda, mas tem dois com mais chances. Queira eu ou não queira eu, é preciso ver o que a sociedade pensa. Isso vai se refletir no partido”, disse.

O ex-presidente lembrou que, na eleição para a Prefeitura de São Paulo, apoiava o pré-candidato Andrea Matarazzo quando foi procurado por João Doria, que lhe pediu apoio. FHC disse que sua palavra não ia “adiantar nada”, que podia ter peso no partido, mas que Doria “tinha que se haver com os cinco milhões de eleitores”. “Não acreditava que ele seria capaz, e foi. Deu um show”, afirmou.

Propaganda do PSDB aumentará pressão do Centrão e do PMDB por reforma ministerial

Parlamentares prometem intensificar a cobrança para que Temer diminua o espaço do PSDB no governo

Igor Gadelha | O Estado de S.Paulo

BRASÍLIA - A propaganda partidária do PSDB veiculada na noite desta quinta-feira, 17, com críticas ao governo Michel Temer (PMDB), aumentará a pressão do Centrão, grupo do qual fazem parte PP, PSD e PR, e do PMDB, partido do presidente, por troca no comando dos ministérios que estão nas mãos dos tucanos.

Parlamentares desses partidos prometem intensificar a cobrança para que Temer diminua o espaço do PSDB no governo. A avaliação é de que a propaganda na qual o partido critica o "presidencialismo de cooptação que vigora no Brasil" é a gota d´água que faltava para convencer o presidente a redistribuir os cargos dos tucanos.

Ministros do PSDB atacam vídeo tucano

Programa que admite erros e critica Temer é chamado de ‘ridículo’ no Palácio do Planalto

Pedro Venceslau, Tânia Monteiro e Carla Araújo | O Estado de S.Paulo

BRASÍLIA - O programa do PSDB exibido nesta quinta-feira, 17, em rede nacional de rádio e TV, no qual o partido reconhece como erro seu próprio fisiologismo e faz críticas diretas ao governo do presidente Michel Temer, foi fortemente criticado por três dos quatro ministros tucanos. No Palácio do Planalto o vídeo foi visto como um “tiro no pé” por auxiliares do presidente, que classificaram a peça de “ridícula”.

Em dez minutos de programa, o PSDB faz uma autocrítica por ter “aceitado o fisiologismo” e define Temer como um presidente que “enfrenta dificuldade de governar e unir o País”. A peça também defende a adoção do parlamentarismo no Brasil, bandeira do partido.

“O presidencialismo de cooptação que vigora no Brasil faliu, tendo gerado crises sucessivas e muita instabilidade política”, diz um locutor, sem citar que ministros do partido negociaram emendas parlamentares em troca de votos de deputados a favor da rejeição da denúncia da Procuradoria-Geral da República (PGR) contra Temer.

Programa amplia racha no PSDB

Crise no ninho

Programa de TV tucano ataca ‘presidencialismo de cooptação’ e aprofunda divisão no partido

Maria Lima e Cristiane Jungblut | O Globo

-BRASÍLIA- Ocupando quatro ministérios no governo de Michel Temer e, ao mesmo tempo, ensaiando um discurso de oposição, o PSDB viu a sua crise interna se aprofundar após a veiculação, ontem à noite, do programa do partido na televisão. Encomendada pelo presidente interino, senador Tasso Jereissati (CE), a peça de dez minutos promove uma autocrítica — sem, no entanto, se aprofundar nos problemas citados — , defende o parlamentarismo e classifica o atual modelo de “presidencialismo de cooptação”. A reação dos tucanos no primeiro escalão governista foi imediata: os ministros Aloysio Nunes (Relações Exteriores), Bruno Araújo (Cidades) e Antonio Imbassahy (Secretaria de Governo) criticaram o programa e ampliaram a fissura com a ala favorável ao desembarque do governo e às mudanças internas.

Em diversos momentos, o programa afirma que “o PSDB errou”. Há ainda uma explicação sobre o funcionamento do “presidencialismo de cooptação”: os poderes Executivo e o Legislativo, segundo a peça, relacionaram-se por meio de inúmeras trocas de favores. “Presidencialismo de cooptação é quando um presidente tem que governar negociando individualmente com políticos ou com partidos que só querem vantagens pessoais, que não pensam no país, uma hora apoiam, outra não, e, quando apoiam, cobram caro”, diz o locutor. Nesse instante, o bonequinho que está no vídeo, carregando vários pacotes, tem os olhos transformados em cifrão. O programa ainda estava sendo transmitido quando Aloysio foi às redes sociais:

Pesquisador enumera fragilidades do fundo

Por Cristian Klein | Valor Econômico

RIO - Não é a montanha de dinheiro do fundo de financiamento eleitoral que Bruno Speck, um dos maiores especialistas no assunto, vê como defeito no núcleo da reforma política em tramitação na Câmara. Para o professor do departamento de ciência política da Universidade de São Paulo (USP), o total previsto de R$ 3,6 bilhões - que deve ser retirado do texto-base, mas pode ser até maior quando for regulamentado a cada eleição - não forma um valor despropositado, se levado em consideração que "o Brasil é grande, eleições são caras e os recursos viabilizam a democracia". "Obviamente que, por causa da crise, está faltando dinheiro em todo lugar, mas mesmo quando o financiamento era quase o dobro, com doações de empresas, o custo do voto para cada eleitor era de um guaraná por ano", compara.

Na noite de quarta-feira, o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, decidiu adiar, para semana que vem, a votação em plenário da proposta de emenda constitucional sobre o tema.

O problema do fundo público eleitoral, afirma Bruno Speck, é que se for para gastar tal volume de recursos seria importante que ele fosse desenhado de "forma justa, inteligente e com o objetivo de fortalecer a democracia". Para o cientista político, três são os principais defeitos da proposta sugerida no relatório do deputado Vicente Cândido (PT-SP): a distribuição do fundo 1) garante um valor "cheio" aos partidos, sem considerar a taxa de abstenção, que deveria ser descontada, num incentivo para que as legendas atraiam os eleitores às urnas; 2) só leva em conta os resultados nacionais dos partidos, quando poderia acrescentar o desempenho estadual e até municipal; e 3) tem como critério da alocação proporcional apenas a última disputa, o que "ossifica" os resultados passados.

Sonetilho do falso Fernando Pessoa | Carlos Drummond de Andrade

Onde nasci, morri.
Onde morri, existo.
E das peles que visto
muitas há que não vi.

Sem mim como sem ti
posso durar. Desisto
de tudo quanto é misto
e que odiei ou senti.

Nem Fausto nem Mefisto,
à deusa que se ri
deste nosso oaristo,

eis-me a dizer: assisto
além, nenhum, aqui,
mas não sou eu, nem isto.
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In Claro Enigma,José Olympio, 1951